sexta-feira, 1 de junho de 2012

Entreguemo-nos ao vento

Entreguemo-nos ao vento.
Proponho agora, antes que me façam acreditar que existe um tarde demais.
Nossa escola era as ruas que caminhávamos como quem pisa em nuvens. E por vê-la assim, possuíamos tudo, desconhecendo um vago pertencer que cabe em qualquer anonimato de quem diz que é.
A vida era outra coisa, pura morte pintada em fantasia. E por fazê-la viva era que nos abraçávamos ao delírio de uma segunda-feira à noite, que nunca é nem diz coisa nenhuma.
Boa tarde senhoras e senhores! Como estão seus pensamentos hoje? Mornos demais? Talvez só mornos... Já que os demais já não lhes cabem. Tampouco conformam. E nunca, nunca confrontam.
Dançávamos aqui, envolta ao silêncio que distribuíram por esse espaço, quando um olhar nos parou. Não se espantem, olhares sempre nos param. Já faz parte do movimento.
Mas havia algo ali, como aqueles galhos daquelas árvores que se enroscam e levam a outros e nunca nos mostra a divisão ou um fim. Era, sim, de se espantar. Olhos castanhos inundados em verde. E eu sempre disse a ela que minha loucura era falha da imaginação alheia, talvez hoje não. Descobrimos que os galhos vinham de nossos olhos, não dos Outros. E se enroscavam, e se pertenciam. E tudo era tecido em pano frio, imagem colada.
Jamais tivemos um dia de quatro mãos dadas e dois olhos vendo. Sempre sonhamos com uma mente só. E não há de se esperar que o vento nos toque de novo para perceber o que passou despercebido. E perguntaremos sempre sobre a imagem que não se entrega a eles, e sobre eles que não entregam a imagem. Quem são eles? Só temos nossos olhos, só nossa imagem de tudo.
Vamos continuar a desenhar com os dedos na areia, seguir os próprios rastros. Não há outro caminho que não seja o próprio que se opõe ao precipício. Não aqui, onde não se cria fantasmas diante de tudo.
Faça tudo o que puder fazer, tudo o que tiver que fazer, tudo o que sentir de fazer, e só pare por completo quando não sentir mais nada, nem o impulso de piscar os olhos.
Porque às vezes você pisca e o vento vem roubar-lhe um cílio só para fazer companhia à roupa suja de alguém. Não duvide. Nem da dúvida.
Boa noite, fada dos dentes quebrados, é hora de parar de buscar travesseiros e ir fazer seus consertos. Lembro-te que temos uma pilha só de migalhas para transformar em inteiros. E que não existimos porque o mundo é belo.
Entreguemo-nos ao vento.

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