Rejeitamos, por fim, o brinde que foi pago ainda mais caro que a percepção pudesse alcançar.E a companhia não demora muito a chegar, sua voz causa arrepios que começa nos ouvidos e termina onde não saberemos.Discretamente sorriu e fez-me lembrar de um conto lido em algum certo livro que já havia fechado."Bom dia, trago-lhe, outra vez, a vítima. Sabes como gosto de agradar aos paladares, não tão bem sentes. Toco a porta dedo a dedo, causando o som suficientemente mais alto que um sussurro. Afirmo-lhe - entrarei."És tão silenciosa quanto atraente. "Gostaria de possuí-la. Então findar-te-ia de uma só vez".Tua maldade venda o tempo feito inocência, sabes que somos tão mutantes quanto a própria vida. Só não sabes que nosso abismo guarda uma corda, lembraremos uns aos outros para livrar-nos de ti.Tu és, eu sei, a dama de branco. Mais donzela impossível, se apresenta numa reverência deliciosamente exposta. Esconde as estratégias do jogo sem usar luvas, brinca de tirar os sentidos. Não a subestimo, não a nego, não duvido de tua força, mas não lhe entregarei os meus pelos seus.A mente curiosa se dissipa e pede abrigo por golpear o seu próprio. Já não é resplandecente como antes, adquiriu textura fosca e sem vida. Criou uma moldura para sua imagem, logo o caminho é não ter caminho, as ruas perderam a saída sem que percebessemos.Agora minha mão foi estendida, e tua intensidade haverá de ser mais forte que a minha, e quando for, haverá de ser vida e não morte. Nosso paraíso foi feito de nossos pequenos tamanhos, ainda sim não temeremos os gigantes. Talvez nossa aversão pela grandeza motive a vitória, ou talvez só descobrimos que das alturas a vista é muito limitada, o movimento é difícil. Somos exploradores de nossas trilhas, não aprendemos a render-se ao que nos prende. Nossa lucidez contraditóriamente inebriada mora onde a ti não pertence, e é onde abraçaremos nossas forças que se unem para um claro 'adeus'. E não lhe encontraremos denovo. Nos encontramos.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Carta de despedida para quem não foi pedida
2012, 24-04. (12h02)
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
A dança entre o ser e o universo
Os dedos estralam numa dança de intervalos que não medem o tempo – mas as batidas do coração. E a vida se propaga. O corpo, cansado de boiar, move braços e pernas e conecta-se à coreografia coordenada pela água, que faz a pele deslizar sem peso algum.A mente se espalha pela superfície e mergulha, sente um impulso forte, tanto da água quanto do desejo de permanecer ali, mas conhece o caminho de volta e as voltas em mundos que o caminho traz.A possibilidade de sentir a terra roçar nos pés e os pés roçarem na água faz com que o corpo e a mente se unam – e que assim possam até mesmo seguir o vento.São um todo agora: o corpo, a mente, a terra, a água, o vento, o tempo. E juntos podem alcançar... o que quer que seja.
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Olá... eu!
Eu poderia perfeitamente me dividir em quatro pessoas: todas com suas múltiplas personalidades. Seria quatro elementos, quatro versos, quatro pontos – um final após as reticências.Eu seria um lago frio numa terra perdida, inexplorado. Seria um livro infantil desabrochado por várias mentes e adaptado a várias realidades improváveis. Seria uma bandeira de paz estendida em tempos de guerra. E seria a música que embala os corpos nas noites.Dentro disso, eu poderia ser tanto silêncio, tanto tumulto, tanto invisível, tanto extremo. E sou. Feito a loucura que inebria corpos e mentes libertos. Feito os passos de um velho refugiado nas grades num feriado fora da prisão. Feito as bocas que se calam e guardam as melhores palavras. Feito todas as sensações.Sou um cego tateando o mundo, sentindo cada possibilidade num novo toque. E hoje, quando me encaro feito num espelho, posso vê-los – aqueles pontos de luz. Estão cintilantes como nunca, e vêm de dentro.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Além do preço, da morte e da imortalidade
Estava bêbado. Estava bêbado e via corvos. Tentava reconstruir a imaginação, procurando os braços de amor que eram nada menos que o fim do mundo. Estava cansado da vida medíocre de ser humano que levava, sendo convencido a querer o que lhe consumia e o devorava com pupilas de cifrão.Tomou posse da garrafa mais cara do bar e trocou-a por um goró com um mendigo na rua. Deixou dormir quem fingia e acordou quem sabia ser. E dormiu aos beijos com as máquinas, sonhando estar nos Estados Unidos.Acordou com a voz do vento, penetrado pela atmosfera e ferindo o horizonte em um barco à vela. E nessa queda, do corpo à alma, colocou peso na leveza e se foi. De longe podia-se avistar sua pele negra, suas roupas finas – jogadas ao mar.E ele voava, ainda com a sensação inebriada que o álcool deixara, misturada com o sentido de um corpo boiando numa banheira. A luz do caos se apagou, e acendeu-se a luz da verdade. Desperto do sono, encontrou sua casa, longe, bem longe, da cegueira e das propagandas de televisão. Abraçou-se ao começo do mundo, que de mãos dadas lhe mostrava o fim – assim, como proposta, explicação, unificação, transparência. Assim, como existir.
Cuidado hereditário
Eu olhava para aquele lago escuro e profundo, afogado em si mesmo, refletindo o vazio alheio que mergulhava na terra. Via as montanhas desmoronando, levando junto quem tentava subir, feito pedra rolando abismo abaixo. Eu sentia o vento frio roubando-me o calor da pele, e temia por acreditar em tudo o que via.Então senti algo varar de meus olhos embaçados, e percebi, naqueles outros olhos, um lago no qual eu poderia ter caído; naqueles ombros um peso que eu não teria aguentado. E deixei o hálito frio transpassar meus dedos, descobrindo vida num corpo morto.Mas a moldura chamou-me a atenção para a imagem escura que se movia junto a mim. Tornei-me espelho da dor que sentia. Trouxe o corpo do outro ao meu, a vida do outro à minha. Porque não era Outro, mas meu.Ali eu soube que a doença é o caminho para a cura, e que uma depende irrefutavelmente da outra, se não do Outro.Levarei a paz à sua mente derrubada, tirarei seu espírito para dançar. E não haverá morte que nos separe.
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