terça-feira, 30 de outubro de 2012

Carta de despedida para quem não foi pedida

2012, 24-04. (12h02)

Rejeitamos, por fim, o brinde que foi pago ainda mais caro que a percepção pudesse alcançar.

E a companhia não demora muito a chegar, sua voz causa arrepios que começa nos ouvidos e termina onde não saberemos.
Discretamente sorriu e fez-me lembrar de um conto lido em algum certo livro que já havia fechado. 
"Bom dia, trago-lhe, outra vez, a vítima. Sabes como gosto de agradar aos paladares, não tão bem sentes. Toco a porta dedo a dedo, causando o som suficientemente mais alto que um sussurro. Afirmo-lhe - entrarei."
És tão silenciosa quanto atraente. "Gostaria de possuí-la. Então findar-te-ia de uma só vez".
Tua maldade venda o tempo feito inocência, sabes que somos tão mutantes quanto a própria vida. Só não sabes que nosso abismo guarda uma corda, lembraremos uns aos outros para livrar-nos de ti.
Tu és, eu sei, a dama de branco. Mais donzela impossível, se apresenta numa reverência deliciosamente exposta. Esconde as estratégias do jogo sem usar luvas, brinca de tirar os sentidos. Não a subestimo, não a nego, não duvido de tua força, mas não lhe entregarei os meus pelos seus.
A mente curiosa se dissipa e pede abrigo por golpear o seu próprio. Já não é resplandecente como antes, adquiriu textura fosca e sem vida. Criou uma moldura para sua imagem, logo o caminho é não ter caminho, as ruas perderam a saída sem que percebessemos.
Agora minha mão foi estendida, e tua intensidade haverá de ser mais forte que a minha, e quando for, haverá de ser vida e não morte. Nosso paraíso foi feito de nossos pequenos tamanhos, ainda sim não temeremos os gigantes. Talvez nossa aversão pela grandeza motive a vitória, ou talvez só descobrimos que das alturas a vista é muito limitada, o movimento é difícil. Somos exploradores de nossas trilhas, não aprendemos a render-se ao que nos prende. Nossa lucidez contraditóriamente inebriada mora onde a ti não pertence, e é onde abraçaremos nossas forças que se unem para um claro 'adeus'. E não lhe encontraremos denovo. Nos encontramos.


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A dança entre o ser e o universo


Os dedos estralam numa dança de intervalos que não medem o tempo – mas as batidas do coração. E a vida se propaga. O corpo, cansado de boiar, move braços e pernas e conecta-se à coreografia coordenada pela água, que faz a pele deslizar sem peso algum.
A mente se espalha pela superfície e mergulha, sente um impulso forte, tanto da água quanto do desejo de permanecer ali, mas conhece o caminho de volta e as voltas em mundos que o caminho traz.
A possibilidade de sentir a terra roçar nos pés e os pés roçarem na água  faz com que o corpo e a mente se unam – e que assim possam até mesmo seguir o vento.  
São um todo agora: o corpo, a mente, a terra, a água, o vento, o tempo. E juntos podem alcançar... o que quer que seja.   

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Olá... eu!


Eu poderia perfeitamente me dividir em quatro pessoas: todas com suas múltiplas personalidades. Seria quatro elementos, quatro versos, quatro pontos – um final após as reticências.
Eu seria um lago frio numa terra perdida, inexplorado. Seria um livro infantil desabrochado por várias mentes e adaptado a várias realidades improváveis. Seria uma bandeira de paz estendida em tempos de guerra. E seria a música que embala os corpos nas noites.
Dentro disso, eu poderia ser tanto silêncio, tanto tumulto, tanto invisível, tanto extremo.  E sou. Feito a loucura que inebria corpos e mentes libertos. Feito os passos de um velho refugiado nas grades num feriado fora da prisão. Feito as bocas que se calam e guardam as melhores palavras. Feito todas as sensações.
Sou um cego tateando o mundo, sentindo cada possibilidade num novo toque. E hoje, quando me encaro feito num espelho, posso vê-los – aqueles pontos de luz. Estão cintilantes como nunca, e vêm de dentro. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Além do preço, da morte e da imortalidade


Estava bêbado. Estava bêbado e via corvos. Tentava reconstruir a imaginação, procurando os braços de amor que eram nada menos que o fim do mundo.  Estava cansado da vida medíocre de ser humano que levava, sendo convencido a querer o que lhe consumia e o devorava com pupilas de cifrão.
Tomou posse da garrafa mais cara do bar e trocou-a por um goró com um mendigo na rua.  Deixou dormir quem fingia e acordou quem sabia ser.  E dormiu aos beijos com as máquinas, sonhando estar nos Estados Unidos.
Acordou com a voz do vento, penetrado pela atmosfera e ferindo o horizonte em um barco à vela. E nessa queda, do corpo à alma, colocou peso na leveza e se foi. De longe podia-se avistar sua pele negra, suas roupas finas – jogadas ao mar.
E ele voava, ainda com a sensação inebriada que o álcool deixara, misturada com o sentido de um corpo boiando numa banheira. A luz do caos se apagou, e acendeu-se a luz da verdade. Desperto do sono, encontrou sua casa, longe, bem longe, da cegueira e das propagandas de televisão. Abraçou-se ao começo do mundo, que de mãos dadas lhe mostrava o fim – assim, como proposta, explicação, unificação, transparência. Assim, como existir. 

Que seja


Em tudo quanto faças sê só tu, 
Em tudo quanto faças sê tu todo.

Cuidado hereditário


Eu olhava para aquele lago escuro e profundo, afogado em si mesmo, refletindo o vazio alheio que mergulhava na terra. Via as montanhas desmoronando, levando junto quem tentava subir, feito pedra rolando abismo abaixo. Eu sentia o vento frio roubando-me o calor da pele, e temia por acreditar em tudo o que via.
Então senti algo varar de meus olhos embaçados, e percebi, naqueles outros olhos, um lago no qual eu poderia ter caído; naqueles ombros um peso que eu não teria aguentado. E deixei o hálito frio transpassar meus dedos, descobrindo vida num corpo morto.
Mas a moldura chamou-me a atenção para a imagem escura que se movia junto a mim. Tornei-me espelho da dor que sentia. Trouxe o corpo do outro ao meu, a vida do outro à minha. Porque não era Outro, mas meu.
Ali eu soube que a doença é o caminho para a cura, e que uma depende irrefutavelmente da outra, se não do Outro.
Levarei a paz à sua mente derrubada, tirarei seu espírito para dançar. E não haverá morte que nos separe.