Não me vejas mais. Toque-me como puderes onde eu não estiver. Sinta-me num instante de dor, de ódio, de susto – qualquer que seja a parte que eu não fazia.Liberte-me de ti como num salto, e como na rotina dos pés ao aterrar-se no chão - prenda-me.Não se importe em usar os olhos comigo, mas esteja em mim. Ocupe-se com tua verdade que desocupar-me-ei de disfarçar os fatos e fazer de tudo um jogo.Não me pertença – me convença, vença tudo o que eu lhe apresentar como defeito.Use-me. Não me deixe para depois onde não existo. Deixe-me escorrer sobre tua história - feito a lágrima que lhe cai tão bem na face.Deixe-me abraçar-te e entregar-lhe meus segredos todos. E no fim, quando já não sentir-me e eu vier a lembrar-te de tudo o que se passou, saiba que deixar-te-ei por amor, e é por amor que lhe peço que fique até despir-nos de nós mesmos numa despedida. Precisamo-nos mutuamente agora, com urgência.Da tua, sempre tuaVida.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
Deixo que a vida lhes fale agora
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Quem descobriu a (si mesmo)?
Alto, magro e deselegantemente curvado para a esquerda, deslizava os pés, tão silencioso, que parecia mover-se em areia. Vestido em seu esporte fino – aparentemente chutar pessoas – divertia-se com a ciranda de olhares tanto medrosos e tão pouco constrangidos que lhe cercava.Fantasiava-se de um vilão malvado e solitário, daqueles que vive num castelo sombrio e cheio de ratos e que todos sabem que não passa de um pobre coitado.O analista tinha os bolsos rasgados de tanto carregar peso, pesava na mente da família. Por ser o único com um motivo a mais para entrar no jogo, guardou para si a experiência, afirmou-lhes que a loucura era uma doença sem cura, e curou a si próprio com as estórias que ouvia nas tardes em que se acomodava na poltrona e deixava o calor do café suar a cavidade que escorregava do nariz.Nada poderia ser feito daquele homem que já havia feito tudo. Desenhou o próprio mundo e deixou a porta em branco para qualquer um que, num simples traçado, viesse a construir uma porta. E calava-se diante do desespero de nunca ser encontrado.
De louco a velho, de velho a morto e santo.
“Coitadinho, pelo menos era feliz”.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Pés, caminhem!
Quem era aquele humano que se postava ali, diante de mim, como alguém que nunca esteve? Eu me renunciava a pergunta que me incomodava.Era como se sua mente nunca carregasse um pensamento que atravessasse imagens, e eu nunca saberia o que seus olhos encaravam, se a cadeira em sua frente, os parafusos que seus dedos desenhavam, ou a cor azul desbotada.E minha mente fantasiosa se limitava em não invadir seu espaço em branco, já que lhe era acusada loucura sem causa e sem remédio em cada vez que tentava descobrir aquilo que ele chamava de amor.E por pensar demais, eu me fazia assim – encurralada. Ele havia me pego em voo como um pássaro, e me transformado num avião. Impediu-me de sentir o vento a cada bater de asas, e eu jazia triste pelos cantos em sua presença.Então, sua voz por findou em dizer-me algo: Você não tem expressão alguma.Agora vejo que minhas expressões ficaram numa máscara de palhaço d’uma noite passada, e de lá não saíram por medo ou numa fuga de não encontrarem casa em meu rosto.Se nem meu sono me cabe, como caberá o vazio conformado de outro?Não se paga imposto para morar em si mesmo. Nem se recebe de fora.Não desisto para fugir de ti, desisto para não fugir de mim.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Ao distante amigo - Humano
Infectaram-se pelo limite do tempo. Que mal lhe pergunte, onde guardam a face de dor que se esconde por trás do assassino e do assassinado? É tudo que de vocês espero, a única expressão espontânea que sei que carregam com o corpo solto e mente sem alongamento.Escovaram os cílios e ensebaram os cabelos num disfarce egocêntrico de quem não sabe se esconder. Pois não me surpreendem, e de tão fraco o risco já me exponho.Caminhe até mim, vulto mascarado. Não me engana os olhos, são só tuas ilusões. Vejo que és espelho cercado de outros mais, e que vossa diversão é o reflexo de um passo torto e igual que se estende por entre as ruas deixando o lixo como rastro. Vejo seus olhos estralados acidentando a visão, enquanto os meus vendados contam a história toda, desde a face suando até as marcas de unhas e dentes em pescoços de noites passadas. Desenho-os na última folha em branco de um caderno adormecido na gaveta, para então jogá-lo à lareira e ver a fumaça preta acinzentando um branco até desaparecer.Permita que minha imaginação os leve agora ao primeiro grito que rasgou o ar e nem se lembram, ao choro de uma criança conhecendo a própria garganta e lamentando por uma última vez uma história passada a não ser lembrada mais. Então dilatem o som do ar de pulmões empoeirados, e recitem tudo aquilo que tem vivido como alguém que canta um hino, num choque entre as mãos e o peito, mostrando a estimada linha que tem costurado seus dias até aqui. Esvaziem as lágrimas de água velha e podre reservada para um choro falso, e deixem a fragilidade do novo voltar a pulsar. Emprestem-me os olhos. Emprestem-se os olhos. Precisamos agora e para sempre das histórias que se escreverão com essas pupilas limpas.Escrevo-te, Humano, a fim de falar-nos. De dizer-nos algo que ultrapasse o sentido e alcance a ação, sem pensar. De encontrar outras para minha coleção de expressões espontâneas. Porque não as tenho visto. Porque, ou meu sentir já não é aguçado, ou já não provocamos mais os sentidos, já que tudo é repetição e ensaio.
domingo, 3 de junho de 2012
Por um imprevisto já previsto
Dizem que a mente tem o poder de concretizar situações
E no deleite de nossos corpos, que eram fotografados pelas luzes coloridas, já não cabia um abraço. Os braços foram estendidos para distanciar o acúmulo de desejos que se escondiam. E eram tão secos e frios quando se moldavam em aconchego, que ninguém descobriria - por mais que soubéssemos como trocar todos os braços e todas as pernas e todos os corpos de lugar para uma sensação perfeita e um desfecho mais aberto, como uma hora estendida dos segundos que seguem à descida de uma montanha russa.Quando a música acaba, a cena nos despede sem permissão, e nossos olhos entregam o que não findamos. Eis nosso desastre e nossa fuga – não concluir o ato que como num ciclo pertenceu-nos aqui e agora, e não seria de outro jeito, e não deixaríamos de esperar que assim fosse.Tuas mãos apontaram-me feito um sussurro quando tudo já silenciado. Não me toque, não me toque outra vez porque o mundo não é nosso. Não somos feitos de um corpo que esfarela. E essa ideia de que ser é estar quase nunca nos convém, e ainda menos quando vejo teu casaco agasalhando a crueza de um corpo nu que já não é feito d’outro, mas por outro. E que tua aura é tão grande sobre a dele, que não se vê mais nada por aí, e ficamos vazios por aqui, com a alma solúvel e um desencanto escancarado.E num basta estaremos distantes outra vez, como se mesmo quiséssemos. Desfaz-se aqui um castelo de poeira construído por uma tempestade de areia. Que o vento leve tudo aos ares e não nos deixe ressecar. E o sol há de queimar minha pele, corar a palidez natural e decorar feito piso velho, até que numa outra volta talvez voltemos a dividir um mesmo tempo.Agora as estrelas pedem que as siga, e que se encontre num lado oposto ao seu mundo para poder ver as luzes que deixou para trás e que guardarão seu caminho de volta, num sempre que talvez nem exista, assim como o pecado, ou a certeza de um anseio.
Wave goodbyeWish me well
sábado, 2 de junho de 2012
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Entreguemo-nos ao vento
Entreguemo-nos ao vento.Proponho agora, antes que me façam acreditar que existe um tarde demais.
Nossa escola era as ruas que caminhávamos como quem pisa em nuvens. E por vê-la assim, possuíamos tudo, desconhecendo um vago pertencer que cabe em qualquer anonimato de quem diz que é.A vida era outra coisa, pura morte pintada em fantasia. E por fazê-la viva era que nos abraçávamos ao delírio de uma segunda-feira à noite, que nunca é nem diz coisa nenhuma.Boa tarde senhoras e senhores! Como estão seus pensamentos hoje? Mornos demais? Talvez só mornos... Já que os demais já não lhes cabem. Tampouco conformam. E nunca, nunca confrontam.Dançávamos aqui, envolta ao silêncio que distribuíram por esse espaço, quando um olhar nos parou. Não se espantem, olhares sempre nos param. Já faz parte do movimento.Mas havia algo ali, como aqueles galhos daquelas árvores que se enroscam e levam a outros e nunca nos mostra a divisão ou um fim. Era, sim, de se espantar. Olhos castanhos inundados em verde. E eu sempre disse a ela que minha loucura era falha da imaginação alheia, talvez hoje não. Descobrimos que os galhos vinham de nossos olhos, não dos Outros. E se enroscavam, e se pertenciam. E tudo era tecido em pano frio, imagem colada.Jamais tivemos um dia de quatro mãos dadas e dois olhos vendo. Sempre sonhamos com uma mente só. E não há de se esperar que o vento nos toque de novo para perceber o que passou despercebido. E perguntaremos sempre sobre a imagem que não se entrega a eles, e sobre eles que não entregam a imagem. Quem são eles? Só temos nossos olhos, só nossa imagem de tudo.Vamos continuar a desenhar com os dedos na areia, seguir os próprios rastros. Não há outro caminho que não seja o próprio que se opõe ao precipício. Não aqui, onde não se cria fantasmas diante de tudo.Faça tudo o que puder fazer, tudo o que tiver que fazer, tudo o que sentir de fazer, e só pare por completo quando não sentir mais nada, nem o impulso de piscar os olhos.Porque às vezes você pisca e o vento vem roubar-lhe um cílio só para fazer companhia à roupa suja de alguém. Não duvide. Nem da dúvida.Boa noite, fada dos dentes quebrados, é hora de parar de buscar travesseiros e ir fazer seus consertos. Lembro-te que temos uma pilha só de migalhas para transformar em inteiros. E que não existimos porque o mundo é belo.Entreguemo-nos ao vento.
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