segunda-feira, 30 de julho de 2012

Naufrágio


Causas desconhecidas.
 Às vezes o navio permanecia décadas afundado sob as impressões e energias do momento pausado em gritos e no silêncio de mentes entre o ápice e o descanso. A música continuava tocando, os corpos se reverberando e os desejos que ficam no ar impregnavam nos cavos da madeira feito musgo. Eram mudas e controláveis as cenas no tempo embaixo d’água.  
 Às vezes o fogo tomava-lhe até desfazer a vida para então cessar, deixando rastros de dentes podres, roupas velhas e redes de pesca.
 Às vezes a explosão colidia a ganância e o medo tirando-lhes o nome e o paladar, onde o insípido não chamava, só faiscava ao salto e apagava na queda em ar já não livre.
 Desta vez as causas eram desconhecidas. O fogo queimava seus remanescentes, seus eixos se chocavam com os de um outrem inóspito e a água cobria-o impedindo, não a entrada, mas a saída do oxigênio, onde seu interior inflava sem explodir.
 O campo de visão era inexato e os olhos caminhavam lentos, longe do corpo de madeira. Distanciavam-se à medida que acreditavam ser uma coisa só ou nada, ou em nadar em uma coisa só. A correnteza roubou-lhe os movimentos. 
 Na pausa entre descargas elétricas via-se jalecos brancos. Vozes cantarolavam: O navio é uma pessoa.
Céus! O navio é uma pessoa que não sabe nadar. E eles diziam: bata os braços, as pernas, respire, levante a cabeça, abaixe a cabeça, mantenha o corpo reto.
 O navio apenas procurava mãos tão grandes que pudessem segurá-lo. Pesado e flutuante, existia para ser o que era, enquanto o tamanho e o peso eram muito mais que matéria física.
 Disse: Não há regras para flutuar aqui.
 E não havia. 

 Sem essa de marchas e de gritar SENTIDO. Já que não há sentido onde não se sente.




terça-feira, 3 de julho de 2012

Carta de amor futurista ou antiquada


Art. 1º
Referente à própria condenação a vida, onde o maior crime cometido foi um sentir ensandecido.
 Declara-se que a visão que se têm é a de fora, que corresponde adentro ao mundo, onde não se culpa a desculpa.
 
Carta ou Tratado (de tratar)
Entrego-me. Permito que me faça em uso de tua lei, que me leve ao acordo entre o que quero e o que farei.
O processo abstém-me a uma fração de frase enclausurada, onde se ressalta que seremos livres e súditos do tempo. A contradição embriagou-me de maneira tão impulsiva ao desejo, que repulsivamente os corpos ocos e sujos de um sangue pisado esquivaram-se – exceto um, que pulsava além do plausível. Era este teu corpo íngreme e dolosamente acessível, contraditório, inefável, que requer enquanto crime que eu me condene a criar estórias para contar-lhe como lhe roubei para minha vida sem que nosso destino caminhe à uma prisão. Este que se fez personagem concreto antes mesmo de deixar de ser o abstrato e quimérico protagonista fantasma de meus contos.
Requeiro a pena mínima de centenas de meus séculos ao teu lado. Mesmo que venhamos a ser galhos ou frutos – desde que haja sombra que nos desenhe, água na boca que nos deguste e devore - e voltemos, tal como o talo e a folha, ou as patas de uma aranha, ou, até mesmo, a silenciosa escuridão. Ofereço-me como de teu domínio, desde que por meio desta (escrito em minha testa) estejamos ao mesmo equilíbrio até que o mesmo não esteja em haver. Que todo som que emitas daí já tenha sido ecoado do aqui que vier a me pertencer. E que jamais nos esqueçamos da pele quando a memória vir a falhar, quando os graus de óculos velhos já não bastarem para enxergar-nos um ao outro. E quando o sol já não lembrar o caminho de volta, estaremos aqui. Não me importa como.
Estendo meus braços, lave-me e leve-me em tua leveza. 


Processo de requisição d’uma esperançosa dama que possui de todas as terras a que vai além da Terra.
1800 e bolinha
Depois do preguiçoso pensar humano