domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sempre vem um dia de sol

Sabe-se lá quando foi que aconteceu. Mas aconteceu. Estavamos com a vida estagnada e de repente veio o tumulto. Ninguém imaginaria que a atitude viria logo dela, que parecia mais parada que a própria vida.
Garota charmosa, menina de tudo. Crescia o olho quando via borboletas, seu grande fascínio. Tinha uma coleção delas, nas mais distintas cores. As prendia em potes de plástico e as via morrer horas depois. Nunca sabia o porquê.
Um dia disseram que ela seria assim a vida toda, e sua resposta veio com um de seus mais lindos sorrisos, como quem está satisfeito com o que é.
Então apareceu um garoto, alto e torto. Ele dizia coisas das quais ela jamais esqueceria. Sussurrava todas as verdades ocultas no meio da noite, quando ela dormia só com a metade do corpo repousada na cama, enquanto se espalhava por sua vida, a vida das outras pessoas e os asfaltos e pedras por onde tinha passado durante o dia.
Eles tinham uma ligação muito forte, e a menina passara a ouvir apenas a voz dele, permitindo-se esquecer sua própria.
Veio um dia de sol daqueles que transmite alegria e parece que o mundo finalmente vai andar, foi quando ela soube da morte dele. E o mundo começou a fazer barulho novamente. Era insuportável a dor de sentir-se num lugar tão cheio de som e de vida. Tentou se matar cinco vezes, não morria. Não percebia que já estava morta, e que mortos não morrem. Sua única opção era viver.


E quero que me provem que mortos não vivem.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Conflitos Internos

- Tudo bem?
- Tudo ótimo.
- Mentirosa!
- Como? (ri.)
- Até seu riso é mentiroso. Por que se engana?
- Não tenho respostas prontas para esse tipo de pergunta.
- Voce não tem nada. Porque não quer, é egoísta e acha que pode controlar tudo sozinha. Só eu vejo as horas em que voce desaba e solta seus soluços remoídos debaixo da água fria do chuveiro, como se fosse salvar sua vida.
- Não minto pra ninguém que não seja eu mesma. E voce não pode fazer nada, não pode me julgar, é igual a mim.
- Vivo dentro de voce, não tenho opção.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Explosão de pequenas migalhas

Pegadas na areia, desenhos feitos a mão. Do alto das pedras observo o mundo como se pudesse ter algum controle, a paisagem que eu posso acariciar, as pessoas que posso movimentar entre meus dedos.
É estúpidamente indolor minha mente agora, as histórias dissolveram-se junto a corrente de ar que as ondas trazem.
Lembro as lágrimas que caíam feito chuva de meus olhos, tempestades intermináveis, e vejo aqui meu novo abismo, me vejo, onde tudo parece mutável. É o tipo de abismo que quero me jogar, parece atraente levantar vôo e acreditar nos meus braços e pernas, deixar apoiada ao chão minha mortalidade.
Lembro-me das suas palavras saindo quase num sussurro: diga-me agora, antes que escureça.
Diga-me agora. Me diga. Agora. Antes que... escureça.

Tentativas inúteis de 'igualar o placar'.
Tudo passa tão rápido que confunde minha respiração, meu corpo encontra-se finalmente numa sensação que poderia ser interminável, é leve e pesado, e os pensamentos vão caindo.
O impacto é como uma explosão de pequenas migalhas, silenciosas, espalham-se e escondem-se, invisíveis a olho nu, perigosas por colarem em corpos nus. A água lentamente passa por meus olhos e cai, caímos.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

anonimato

a solidão vivida no meio da multidão

Uma semente de amor num jardim de ervas daninhas

Sinto algo maior e mais forte a ponto de me engolir, dentro de mim. Passo horas a fio em frente ao espelho buscando traços do homem que sei que sou, mas nunca encontro.
Se ela soubesse como tem o dom de traze-lo a vida em sua presença, e como com a mesma força o empurra de volta...
Ainda tenho a sensação do toque de sua mão na minha, vou mais além, sigo as curvas de seus dedos e inebriado alcanço sua boca, que se abre e se entrega, meros pensamentos que não demoram muito a pousar meus pés no chão.
Eu só desejava que as portas do metrô não se fechassem, que as pessoas não permanecessem, que a vida se trancasse naquela cena em que ela me abraçava e sussurrava o quanto era importante ter me conhecido.
Mas as portas se abriram, as pessoas continuaram com seus silêncios particulares que gritavam aos meus ouvidos, e ela, se foi. Se foi e me deixou sorrindo para o chão onde seus passos ficaram marcados, o chão que eu venho pisando dia após dia, acreditando que a esqueci até vê-la denovo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012


Fragmentos de uma nova história

Os conheci a menos de duas semanas atrás, quando cruzaram os olhares vazios numa daquelas noites solitárias. Enquanto eu os observava, tinha a sensação de que eram como um papel e uma caneta, e ela sabia bem a magia que poderia fazer com essas duas coisas. Escutavam suas vozes paralelas mas nunca conversavam diretamente. Então, sem hesitar, sua mente falou mais alto e ele a chamava para perto, quase sem palavras ditas. Aquela garota tinha uma visão clara e sem nuvens novamente, sentia-se feliz.
Soube que ela gostava de colecionar pessoas em extinção, e caía em seu abismo interior nos tempos em que não encontrava ninguém. Nos mais simples jeitos diferentes ela encontrava a beleza. 
O menino dos olhos de vidro, que parecia viver num mundo desenhado, a impressionava por ter passado despercebido por tanto tempo. Ele só queria dizer que achava graça no seu jeito torto e solitário de passar os dias, e quase sem querer ela temia as palavras que estavam adormecidas e foram escritas logo por alguém que não fazia parte da história.
Encontraram-se numa dessas esquinas que a vida cria no meio de uma rua sem movimento, e agora posso ouvir seus corações palpitarem junto com os ponteiros que as seis horas dirão se voltarão a ver as horas passarem no mesmo relógio.

"E fica tão difícil
De ir embora
E às vezes escondido
A gente chora
E chora mesmo sem saber porque"

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Peculiaridades de uma mente sadia

Havia lugares dos quais ele gostaria de guardar em seu quintal. Lugares como aquelas varandas, daquelas casas, daqueles amigos de amigos, que viviam cruzando seu caminho. Eram incontáveis cenas gravadas em sua imaginação ou por sua câmera fotográfica. 
Sua casa, uma grande sala com um banheiro pequeno, era completa por suas fotografias em paredes sem cor alguma. E aquela música tocava incansavelmente todos os dias, parecendo escorrer das imagens, penetrando tudo que fosse concreto e atraindo tudo que fosse abstrato. 
Ele tinha um jardim no teto, e costumava deitar no chão e imaginar o que estaria acontecendo por trás. Geralmente atrás de jardins havia muita terra, mas seu jardim tinha um céu azul de mil tonalidades e acontecimentos, e era disso que ele gostava especialmente, encontrar céus azuis onde deveria haver terra. Gostava dos que choviam, dos que eram cheios de nuvens, dos que eram limpos e ventavam. E quando os encontrava, soltava pássaros para ver voar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A virtude em outras mãos

Enfim o despertar da primavera num dia de verão. É tudo tão claro que vem a ser e tornar transparente. Deixou de ser quente, de agredir o corpo e a alma.
Agora ela gosta especialmente de caminhar sem rumo pelas tardes vivas que revelam-se dia após dia. Com um pé na calçada e outro em seus pensamentos acabou descobrindo-se no presente, como há muito tempo ou jamais fizera. Essa descontentação com o agora sempre a resguardou aos velhos tempos, as vezes tão velhos que nem eram dela. E quão amava esses tempos, mas esquecia-se de traze-los e acabava indo embora com eles.
Mas, nesta tarde, especialmente, perdeu-se vendo suas veias pularem num novo ritmo, de repente tão seu quanto jamais tivesse ousado perceber, então encontrou-se. Como se fosse um fio solto num poste de eletricidade que o vento tratou de reconectar.                                                                     
As pessoas que a rodeavam começaram a achá-la egoísta. Talvez ela tenha deixado de estar presente por fora para descobrir-se internamente. Passou a olhar as coisas com seus velhos novos olhares e agora sente-se mais do que nunca filha do mundo. Sendo assim, prender-se de mais ao instável a incomoda, e como se passasse num túnel escuro foi desativando todas as insistencias de sua mente. Então uma música começou a tocar quase inaudível, mas ela conhecia bem, e agora sussurrava:
E nossa história
Não estará
Pelo avesso assim
Sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar
E até lá
Vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora, ahh!
Apenas começamos.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

De repente me vi tão cheia dos meus vazios, que comecei a gostar. Estava literalmente sozinha, como nunca havia ficado antes. Perdida onde todos haviam se tornado estranhos. A previsão para os próximos dias desse ano não são muito diferentes disso, o fim do mundo que eu acreditava existir.      Ó estrela cadente da noite de ontem, realize meu pedido tirado da parte mais funda que me resta.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Sem lembranças viveremos em um só (em homenagem a um dia especial)

Salve-se.
Salve-se antes que não possa mais sentir seus membros que começam a ficar dormentes. Admita que quer continuar, salve-se.
Agora eles já fizeram o maldito trabalho sujo deles, as aparencias são sempre as melhores quando as pessoas não sabem das vidas que eles deturpam.
Reaja, não entregue seu corpo como quem entrega o que não pertence, é seu. Seu e meu. Estenda sua mão que eu te trago de volta.
Tarde de mais.
Eu gritava salve-se como quem grita por socorro. Porque além de qualquer outra coisa eu queria salvar-me. Salvar-me da monotonia que eu viria a enfrentar sem o menor resquício da presença dele. Eu queria abrigar-me em seus braços por uma única vez, digo agora, pois quereria muitas vezes mais. Sem ter queria o mínimo. 
Mas eu vim. E nasci chorando por tê-lo deixado. Extravasei toda minha dor com os gritos e choros de um bebe recém-nascido. Então sobrevivi. E depois vivi. Aprendi a viver por nós dois. Enquanto puder não soltarei a corda, não permitirei que meu corpo falhe junto à mente, que ele durma e nos abandone. Viverei e viveremos duplamente.

Estradas cruzadas

Empalidecido sorria. Sua voz jazia rouca pelos cantos da casa, morrera sem que ninguém houvesse percebido. Por escolha olhava seus últimos dias sozinho entre cobertas e escassos pensamentos. A doença carnal quase não doía fronte àquela que havia consumido sua alma, logo desistiu dos remédios. Seu organismo rejeitava qualquer combustível que viesse por comida, mantinha-se com água de coco. A depressão viera deitar-se em sua cama e fazer-lhe companhia, para que dormissem juntos neste mundo, e finda espera, houvesse um nunca mais. Ele não tivera medo, optou viver mesmo quando estava sujeito a morrer por isso, e agora estava com meio pé no mundo e todo o corpo flutuante. As palavras que saíam de sua boca negavam tudo, dizer seria tornar verdade e que estivesse morto a viver a verdade. Na véspera bebera cinco dias sem parar, uma prévia boas-vindas à partida. Então, acordou um dia pensando na letra de uma nova música, era feita pra alguém em especial, alguém que acabara de nascer e viveria anos após sua partida, terminada a música ele procurava algum lugar para escreve-la, então a metade de seu pé também se soltou e seu corpo todo estava imerso. Deitado na grama de um lugar desconhecido sussurrava aquela letra, colocando aquela criança para dormir e acordar todos os dias sentindo as palavras que não foram ditas mas ela ouvira.

O teatro é a bebida

Nos sentimos senhores da verdade encenando nossos personagens no meio da rua, como quem nunca irá ser descoberto. A gente se inebria de teatro, e usa isso de combustível diariamente. Metade da cena são textos que já haviam sido ensaiados por algumas horas a fio, outra metade fez parte do ensaio subconsciente, com respostas ligadas no automático. Entre uma coisa e outra, só improviso.
Acho valioso ter a opção de viver assim, e não há quem não se solte, se enrosque e se mostre com tudo que (não)pode  quando sobe num palco. Temos palcos em todos os lugares.
Encenar não significa forçar ser outra pessoa, mas ser do seu jeito quem voce quiser. Isso me lembra alguém que vive me dizendo que enceno o tempo todo. Sua resposta, meu bem, é que se a gente pode se inventar, que seja por inteiro. E não há verdade que seja mentira quando voce acredita nela.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012


Tuas pupilas me contaram

 Improvisando quem era ele sempre acabava se escondendo. Virava a primeira esquina se na rua se deparasse com qualquer coisa que o levasse a confrontar-se consigo mesmo. Quando sorria odiava-se. Gostava mesmo era de cultivar suas lágrimas internas, essas viviam escorrendo por trás de seus olhos e embaixo da pele de seu rosto, até alcançar os pulmões fazendo-o soluçar no quarto vazio. Respirava doce, expirava amargo. Tudo que caísse em seu abismo interior virava pó ou concreto. Palavras cruas saíam de sua boca vez ou outra quando preciso, na maioria das vezes calava-se e ensurdecia. Me disseram que era estranho, anormal. Eu sempre soube que normalidade não fazia parte da vida dele, mas nunca havia me interessado pelo óbvio. O vazio que eu via em sua alma cavava um buraco na minha, que já havia sido costurada e reformada diversas vezes. Passei a segui-lo e descobri que muitas vezes ele andava em círculos, então diminuía a velocidade de seus passos quando passava mais uma vez em frente a construção, como se esperasse o momento certo, subia as escadas, e eu o fitava quando já no alto olhava longe e profundamente, sempre na mesma direção. Eu sentia que era lá que morava sua dor, e não havia dia em que ele não olhasse pra ela.
Sua boca ainda vai te matar