sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

"Vem de repente um anjo triste perto de mim"

(Não me dê atenção
Mas obrigado por pensar em mim. - A Via Lactea)

Vou me encarar somente hoje dessa forma. Engasgo.
Engasgo e recomeço.
Há o caos silencioso da sede de um deserto dentro de mim, há ainda a explosão insonora de um relâmpago na escuridão e abismo de um céu noturno. Sinto-me agora, como antes jamais, tampouco como hoje... sinto-me onde não estive, unhas sujas de terra, gosto de acerola, paz de primavera... não... não sinto a paz de primavera. Quero senti-la. E por querer-me tanto, e tanto querer ao externo, nada possuo. Sinto-me como a sacola plástica que escapa das mãos de um estranho e é carregada pelo vento, findará num corredor de água de chuva sem qualquer zelo.  Sinto uma vontade grande de sair por aí e esquecer de quem sou, esquecer até mesmo do esquecimento, me ver livre de qualquer sentimento de dor, perda, ou até mesmo a saudade. Então aquele doce desejo de estar no alto de uma montanha retoma, meus braços e asas e pele – anseiam. Quero fugir. Fugir de quê? De quem? Tudo parece perfeitamente imperfeito. O beijo da morte levou junto com um ser amado algo precioso em mim... abrigo. Tento, tentamos, os telhados já não são fortes para as chuvas de lágrimas que vem me invadir, meus braços já não sobem em tecidos buscando alcançar o céu... forças se vão e esvaem. Não me reconheço como quem sou, como minha familiar não importância com os erros alheios... Sinto dores mortas, sentimentos adormecidos, medo. Penso e repenso em me entregar ao vento que tanto pertenci e hoje me escondo. Não sei quais são meus próximos caminhos, apenas sinto uma vontade imensa de partir... sem destino... sem parada. Apenas me ver a caminho de algo. 

domingo, 20 de outubro de 2013

Ser corr-e-dor

 Era delicado afugentar-se em cores para distrair os olhares, qualquer sentimento ruim se escondia como num quadro, e as pequenas bochechas rosadas se esticavam, crianças em meio ao tumulto das horas em que transitei entre uns e outros ônibus. Descobri anestesia nas cores, viciei-me na sensação de despertar a luz do ser humano e conduzi-lo ao lúdico mundo de vidas que jorram dentro de mim. Hoje sou camaleoa que se veste de canário e sai voar bem alto até derrubar as penas e escolher outro elemento. Hoje sou luz que transpassa o medo de viver a ingenuidade desse mundo de dor, escorro até não sobrar uma gota e me coloco pra secar e crescer ao sol.

 Desvendei o mistério do coração, espetei o meu em espinhos para descobrir que é só uma forma romântica de se dizer que o cérebro sente, e tentei confundir o cérebro de outros que acreditavam no coração para me livrar de sentimentos incompreendidos, mas a crença é quente e mais forte que a frieza... Descobri que não posso ser livre se deter o outro. Congelei-me na frieza e derreti, desfiz preceitos letais, e escolho agora o vento para me levar por onde a arte anda, para purificar, expandir, esquecer dores e ver flores no caminho. 

sábado, 22 de junho de 2013

Monólogo do silêncio


Alojado entre a chama e o balde de água fria, como se pudesse derreter a qualquer momento e então escorrer pra fora desse peito sufocado.  Pode se chamar de cru, e então podre. Acumulado e inflamado como células cancerígenas que mastigam organismos de anos em dias. Para se elevar em efeitos leves, talvez lavar ajude a levar o lixo pra fora. Talvez sucumbir aos desgastes e evacuar as memórias em uma longa diarreia de velas derretidas e dramas rasgando a pele, escancarar os calos e caros enganos e desperdícios de dias a pão de ló e água morna. Nada como um doce para uma criança chorando a toa. Os leitos vazios, se não aquele que abriga o mestre da casa e cobre-o de cuidados tardios e amor regado aos talos, algo que console essa noite calada pelos gritos que se ouve no silêncio. Não acredite nas palavras santas que lhe dizem aos cochichos, os pés dos ouvidos estão mancos e falhos, e a segurança está apenas nas raízes embaixo deles, das que guardam o apogeu do eterno poucas restaram. Encontre-as. 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Quase mentira


"..como se fosse uma fruta madura, à espera de ser colhida. É assim que vejo ela, às vezes. Como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você. Não aconteceria com outro. Depois, quando ela foge, penso que não, que não era uma fruta. Que era um bicho, um bichinho desses ariscos. Coelho, borboleta. Um rato. É preciso cuidado com o arisco, senão ele foge. É preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo. Cada movimento em direção a ele é tão absolutamente lento que o tempo fica meio abolido. Não há tempo. Um bicho arisco vive dentro de uma espécie de eternidade. Duma ilusão da eternidade. Onde ele pode ficar parado para sempre, mastigando o eterno. Para não assustá-lo, para tê-lo dentro dos seus dedos quando eles finalmente se fecharem, você também precisa estar dentro dessa ilusão do eterno." (Pela noite, O Triângulo das Águas, p.109.)

 Ele
foi o cego que tateou o prego e a praga até chegar aqui, desvendou os que enxergam e tragou os que transitam em transe, gargalhou em alegria e em miséria, dirigiu os próprios passos solitários e acompanhados de sombras que de repente sumiam na calçada quente. Por muitas vezes comeu o que vomitou de tudo isso para que degustasse mais... até provar o verdadeiro gosto do prazer e do desalento. Dedilhou o tempo com a segurança de quem tem um ás na manga, e com a insegurança de ter perdido o braço.
 
 
 
Quando lhe digo que como o que vomitou para degustar também, é porque quero criá-lo nas veias, cultivar suas dádivas mundanas para meu conhecimento espiritual... E foi bem assim que unimo-nos. Ele socou e abraçou a carne o quanto pôde até que me sentiu, pois era o único que eu, enquanto rato, sabia que estava na ilusão do eterno, e estava num ápice que me absorveu de dentro a fora, então esquecemos os outros caminhos, Meu interno e o externo d’Ele, que não deixavam de ser Meu externo e o interno d’Ele, fundiram-se ao que somos hoje.
Agora como no prato d”Ele com a mesma boca que beija ou a mesma escova que limpa nossos dentes, como no silêncio d’Ele com a mesma garganta que grita e que cala, como nos versos d’Ele com a mesma mão que escreve e acaricia, e como no corpo d’Ele com  a mesma silhueta na parede e no teto... então comemos juntos, assim como sonhamos ou remamos. Encontrei nos olhos dele tanto de Shakespeare quanto de Romeu, tanto de Renato quanto de Gabriel, tanto do Ídolo quanto do arcanjo... me encontrei lá também...
O plano é pisar leve ou bruscamente, esgotar as possibilidades e sentidos e então ver um no outro a pele envelhecer até paralisar, deixar rastros de nossas aventuras para a luz dos céus noturnos, e o sorriso de lembrança no rosto de um neto ou bisneto. “Ser feliz para sempre”.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Antes que sufoque


No além do eufórico aforismo, exacerbo em distinção: Que o mundo me engane, mas não me cale, e que as ideias sejam todas contrárias ao abate psíquico. Molestei meus conceitos do julgo ao alheio, infringi leis humanizadas e bestificáveis, hoje rogo e regurgito tudo aquilo que espremi ao estômago laceado de nós socados garganta abaixo, e que em retardatárias fiquem todas as cinzas que sobraram da podridão de certos pensamentos.
Reconstruo-me aqui como o recém-liberto escravo... Correndo para saciar outro tipo de fome senão aquela que habituou entre as costelas.  Em celestial abrangência disforme, corro o risco de sucumbir ao vento, e esquecer até mesmo do esquecimento quando finalmente honrar meus preceitos de apenas sentir.