domingo, 3 de junho de 2012

Por um imprevisto já previsto


Dizem que a mente tem o poder de concretizar situações



E no deleite de nossos corpos, que eram fotografados pelas luzes coloridas, já não cabia um abraço. Os braços foram estendidos para distanciar o acúmulo de desejos que se escondiam. E eram tão secos e frios quando se moldavam em aconchego, que ninguém descobriria - por mais que soubéssemos como trocar todos os braços e todas as pernas e todos os corpos de lugar para uma sensação perfeita e um desfecho mais aberto, como uma hora estendida dos segundos que seguem à descida de uma montanha russa.
Quando a música acaba, a cena nos despede sem permissão, e nossos olhos entregam o que não findamos. Eis nosso desastre e nossa fuga – não concluir o ato que como num ciclo pertenceu-nos aqui e agora, e não seria de outro jeito, e não deixaríamos de esperar que assim fosse.
Tuas mãos apontaram-me feito um sussurro quando tudo já silenciado.  Não me toque, não me toque outra vez porque o mundo não é nosso. Não somos feitos de um corpo que esfarela. E essa ideia de que ser é estar quase nunca nos convém, e ainda menos quando vejo teu casaco agasalhando a crueza de um corpo nu que já não é feito d’outro, mas por outro. E que tua aura é tão grande sobre a dele, que não se vê mais nada por aí, e ficamos vazios por aqui, com a alma solúvel e um desencanto escancarado.
E num basta estaremos distantes outra vez, como se mesmo quiséssemos. Desfaz-se aqui um castelo de poeira construído por uma tempestade de areia. Que o vento leve tudo aos ares e não nos deixe ressecar. E o sol há de queimar minha pele, corar a palidez natural e decorar feito piso velho, até que numa outra volta talvez voltemos a dividir um mesmo tempo.
Agora as estrelas pedem que as siga, e que se encontre num lado oposto ao seu mundo para poder ver as luzes que deixou para trás e que guardarão seu caminho de volta, num sempre que talvez nem exista, assim como o pecado, ou a certeza de um anseio.
Wave goodbye
Wish me well


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