quarta-feira, 20 de junho de 2012

Quem descobriu a (si mesmo)?


Alto, magro e deselegantemente curvado para a esquerda, deslizava os pés, tão silencioso, que parecia mover-se em areia. Vestido em seu esporte fino – aparentemente chutar pessoas – divertia-se com a ciranda de olhares tanto medrosos e tão pouco constrangidos que lhe cercava. 
Fantasiava-se de um vilão malvado e solitário, daqueles que vive num castelo sombrio e cheio de ratos e que todos sabem que não passa de um pobre coitado.
O analista tinha os bolsos rasgados de tanto carregar peso, pesava na mente da família. Por ser o único com um motivo a mais para entrar no jogo, guardou para si a experiência, afirmou-lhes que a loucura era uma doença sem cura, e curou a si próprio com as estórias que ouvia nas tardes em que se acomodava na poltrona e deixava o calor do café suar a cavidade que escorregava do nariz.
Nada poderia ser feito daquele homem que já havia feito tudo.  Desenhou o próprio mundo e deixou a porta em branco para qualquer um que, num simples traçado, viesse a construir uma porta.  E calava-se diante do desespero de nunca ser encontrado.

De louco a velho, de velho a morto e santo. 
“Coitadinho, pelo menos era feliz”.

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