terça-feira, 7 de maio de 2013

Quase mentira


"..como se fosse uma fruta madura, à espera de ser colhida. É assim que vejo ela, às vezes. Como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você. Não aconteceria com outro. Depois, quando ela foge, penso que não, que não era uma fruta. Que era um bicho, um bichinho desses ariscos. Coelho, borboleta. Um rato. É preciso cuidado com o arisco, senão ele foge. É preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo. Cada movimento em direção a ele é tão absolutamente lento que o tempo fica meio abolido. Não há tempo. Um bicho arisco vive dentro de uma espécie de eternidade. Duma ilusão da eternidade. Onde ele pode ficar parado para sempre, mastigando o eterno. Para não assustá-lo, para tê-lo dentro dos seus dedos quando eles finalmente se fecharem, você também precisa estar dentro dessa ilusão do eterno." (Pela noite, O Triângulo das Águas, p.109.)

 Ele
foi o cego que tateou o prego e a praga até chegar aqui, desvendou os que enxergam e tragou os que transitam em transe, gargalhou em alegria e em miséria, dirigiu os próprios passos solitários e acompanhados de sombras que de repente sumiam na calçada quente. Por muitas vezes comeu o que vomitou de tudo isso para que degustasse mais... até provar o verdadeiro gosto do prazer e do desalento. Dedilhou o tempo com a segurança de quem tem um ás na manga, e com a insegurança de ter perdido o braço.
 
 
 
Quando lhe digo que como o que vomitou para degustar também, é porque quero criá-lo nas veias, cultivar suas dádivas mundanas para meu conhecimento espiritual... E foi bem assim que unimo-nos. Ele socou e abraçou a carne o quanto pôde até que me sentiu, pois era o único que eu, enquanto rato, sabia que estava na ilusão do eterno, e estava num ápice que me absorveu de dentro a fora, então esquecemos os outros caminhos, Meu interno e o externo d’Ele, que não deixavam de ser Meu externo e o interno d’Ele, fundiram-se ao que somos hoje.
Agora como no prato d”Ele com a mesma boca que beija ou a mesma escova que limpa nossos dentes, como no silêncio d’Ele com a mesma garganta que grita e que cala, como nos versos d’Ele com a mesma mão que escreve e acaricia, e como no corpo d’Ele com  a mesma silhueta na parede e no teto... então comemos juntos, assim como sonhamos ou remamos. Encontrei nos olhos dele tanto de Shakespeare quanto de Romeu, tanto de Renato quanto de Gabriel, tanto do Ídolo quanto do arcanjo... me encontrei lá também...
O plano é pisar leve ou bruscamente, esgotar as possibilidades e sentidos e então ver um no outro a pele envelhecer até paralisar, deixar rastros de nossas aventuras para a luz dos céus noturnos, e o sorriso de lembrança no rosto de um neto ou bisneto. “Ser feliz para sempre”.