quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Cuidado hereditário


Eu olhava para aquele lago escuro e profundo, afogado em si mesmo, refletindo o vazio alheio que mergulhava na terra. Via as montanhas desmoronando, levando junto quem tentava subir, feito pedra rolando abismo abaixo. Eu sentia o vento frio roubando-me o calor da pele, e temia por acreditar em tudo o que via.
Então senti algo varar de meus olhos embaçados, e percebi, naqueles outros olhos, um lago no qual eu poderia ter caído; naqueles ombros um peso que eu não teria aguentado. E deixei o hálito frio transpassar meus dedos, descobrindo vida num corpo morto.
Mas a moldura chamou-me a atenção para a imagem escura que se movia junto a mim. Tornei-me espelho da dor que sentia. Trouxe o corpo do outro ao meu, a vida do outro à minha. Porque não era Outro, mas meu.
Ali eu soube que a doença é o caminho para a cura, e que uma depende irrefutavelmente da outra, se não do Outro.
Levarei a paz à sua mente derrubada, tirarei seu espírito para dançar. E não haverá morte que nos separe. 

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