quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Além do preço, da morte e da imortalidade


Estava bêbado. Estava bêbado e via corvos. Tentava reconstruir a imaginação, procurando os braços de amor que eram nada menos que o fim do mundo.  Estava cansado da vida medíocre de ser humano que levava, sendo convencido a querer o que lhe consumia e o devorava com pupilas de cifrão.
Tomou posse da garrafa mais cara do bar e trocou-a por um goró com um mendigo na rua.  Deixou dormir quem fingia e acordou quem sabia ser.  E dormiu aos beijos com as máquinas, sonhando estar nos Estados Unidos.
Acordou com a voz do vento, penetrado pela atmosfera e ferindo o horizonte em um barco à vela. E nessa queda, do corpo à alma, colocou peso na leveza e se foi. De longe podia-se avistar sua pele negra, suas roupas finas – jogadas ao mar.
E ele voava, ainda com a sensação inebriada que o álcool deixara, misturada com o sentido de um corpo boiando numa banheira. A luz do caos se apagou, e acendeu-se a luz da verdade. Desperto do sono, encontrou sua casa, longe, bem longe, da cegueira e das propagandas de televisão. Abraçou-se ao começo do mundo, que de mãos dadas lhe mostrava o fim – assim, como proposta, explicação, unificação, transparência. Assim, como existir. 

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